O Último dia na Terra Caribis – minha última visão do Haiti.

O Último dia na Terra Caribis

O dia já está amanhecendo, neste começo de junho de 2007, e o movimento das viaturas começa a aumentar. Soldados com coberturas azuis e nobres pensamentos nas cabeças cruzam de uma fração para outra nos primeiros raios solares sobre o Campo Charlie, sede do Batalhão Brasileiro de Força de Paz no Haiti, na capital Port au Prince. A missão segue seu ritmo, rumo ao que se propôs a fazer, que é ajudar o povo haitiano no que de mais caro existe para uma civilização: a reconstrução da dignidade.
Mas este não é mais um dia como qualquer outro, pois hoje é dia de retornar ao Brasil e de retomar a vida, depois de seis longos e emocionados meses, trabalhando intensa e incessantemente, sem experimentar final de expediente, final de semana, final de tarefa, final de saudade.
O Soldado, nesta manhã, tem a respiração um pouco alterada, o controle emocional um pouco fragilizado só em pensar no regresso, quando poderá rever a esposa, os filhos, a mãe, o pai, a namorada, o Brasil. Enfim, suas emoções o remetem ao maravilhoso país natal que o está esperando, e uma sensação de ansiedade e de tristeza pela partida se mistura à alegria da volta e da, agora tão valorizada, vida em um país aconchegante que se chama Brasil.
Esses seis meses foram de muita tensão, com momentos de perigo de morte, envolvendo tropas, forças adversas, armas, tiros, lágrimas, poeira, coragem, compaixão, dor. Foram muitas noites sob a proteção de Deus e a confiança na determinação e na preparação profissional do Soldado Brasileiro, momentos nos quais o Militar teve que mostrar seu valor de homem determinado, profissional do mais alto valor.
O Soldado que começa os preparativos para embarcar no caminhão que o conduzirá ao Aeroporto Internacional Toussaint Louverture, de Port au Prince, já sente algumas lágrimas rolarem pelo seu rosto, mas não de fracasso ou de desesperança, mas pelo sentimento de dever cumprido, de alma leve por ter dado o melhor que pôde pelo país que tanto precisava. O caminhão já está chegando ao aeroporto e as lágrimas ainda caem. Ao ver o avião da Força Aérea Brasileira, o coração dispara.
Ao decolar, o avião sobrevoa a capital haitiana como um último olhar sobre o teatro de operações, passando sobre a Cruz de Malta, a Caixa d’água de Cité Soleil, sobre o Ponto Forte 16, e o soldado relembra os difíceis momentos por que passou nas patrulhas pela região, nos ataques que sofrera contra os Pontos Fortes, sendo alvo de tiros, representando seu país e como força das Nações Unidas em nome da Paz. O Soldado finalmente sorri, dá um suspiro de felicidade pela partida, deixando para trás outros 1.200 brasileiros que continuarão a missão de pacificação do país mais pobre das Américas.
No Campo Charlie, outros soldados olham o avião que vai desaparecendo no azul do céu caribenho e pensa no Brasil, na família, pai e mãe… mas uma voz chama a atenção, fazendo-o voltar o olhar para a entrada do Campo Charlie, onde algumas crianças estão insistindo: “manjê”, “manjê”, “manjê”(*).
O dia continua na terra Caribes…

(*) A palavra “manje” significa “comida” no dialeto creole – falado no Haiti. Essa palavra ecoa até hoje na minha cabeça. Acho que ecoará para sempre.

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Uma resposta

  1. Olá professor Vilmar!

    É com grande admiração no seu trabalho que tenho a liberdade de escrever em poucas palavras sobre seu artigo, na missão de paz no Haiti.
    Analisando todo o artigo, vejo a emoção exposta em cada palavra usada, porém, noto que há uma certa expectação quanto àquela gente, povo sofrido, sem esperança no amanhã.

    O mais interessante em todo esse conteúdo é a satisfação de ter o dever cumprido numa missão que não foi nada fácil, onde sofreram contra-ataques, porém, em momento algum recuaram, mais trabalharam em benefício aqueles que nasceram e cresceram num lugar sofrido, com escassez de água tratada, energia, alimentação, saneamento básico, enfim, sem conforto e segurança.

    Quero encerrar deixando uma breve cometário:

    “Há esperança, sempre há uma esperança para uma gente que nunca entendeu a razão de sua existência, o motivo de sofrimento da sua gente. As pessoas precisam ouvir falar de Deus, pois somente o conhecimento a respeito desse Deus os levará a um entendimento de fé e a certeza que no amanhã haverá dias melhores, de que existe uma solução para seus problemas e de que há um Deus que só espera que o povo clame por ele para que possa ajudá-los.”

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